Entre Tragédias e Memória: O Dever Ético de Reconhecer Sofrimentos de Todos os Povos

 

As Nações Unidas aprovaram a “Declaração sobre o Tráfico de Africanos Escravizados e a Escravatura de Africanos como o Mais Grave Crime Contra a Humanidade”, reconhecendo formalmente a magnitude e brutalidade desta tragédia histórica. O tráfico transatlântico de escravos durou cerca de quatro séculos, vitimando mais de 12 milhões de africanos e destruindo culturas inteiras, famílias e comunidades. Este reconhecimento da ONU é um marco importante de justiça simbólica, mas também levanta questões sobre a forma como o sofrimento humano é politicamente instrumentalizado.

A resolução vai ainda mais longe ao exigir reparações dos países envolvidos no tráfico. Essa exigência não é, em si, injusta. No entanto, o texto ignora um facto essencial: a participação ativa de alguns africanos na captura e venda de outros africanos, parte integrante do comércio transatlântico. Ao omitir essa dimensão, a narrativa internacional apresenta uma versão incompleta da história, reduzindo responsabilidades complexas a uma leitura simplista. Exigir reparação sim, reconhecer a parte de responsabilidade não deve ser optional e ainda menos, escamoteado. 

Mas o problema maior  surge quando debates sobre tragédias humanas se transformam em competições de sofrimento. A dor não se mede, não se compara e não se hierarquiza. Esta lógica não é apenas intelectualmente simplista; é moralmente questionável e socialmente perigosa. Reduzir experiências complexas de sofrimento humano a uma hierarquia gera banalização das vítimas e abre espaço para manipulação ideológica e política.

A posição de Israel, que votou contra esta resolução, é frequentemente deturpada de maneira a adaptar-se a uma narrativa, em grande parte fomentada pela própria ONU. O voto de Israel, não nega o sofrimento africano; pelo contrário, reflete uma preocupação ética: recusar enquadramentos que criem hierarquias de tragédias, diminuindo outras narrativas de dor. Séculos de perseguições, expulsões, pogroms e, sobretudo, o Holocausto, no qual seis milhões de judeus foram assassinados de forma sistemática, não podem ser relativizados ou equiparados de forma simplista a outras tragédias, sob pena de banalizar a memória histórica.

É igualmente necessário reconhecer outras tragédias históricas de dimensão global, incluindo:

  • Genocídio Arménio (1915-1917): mais de 1 milhão de arménios mortos pelo Império Otomano;

  • Genocídio em Ruanda (1994): aproximadamente 800.000 tutsis assassinados em cem dias;

  • Expurgos de Stalin (1930s): milhões de mortos e deportados na União Soviética, incluindo assassinatos políticos, execuções sumárias e fomes induzidas;

  • Revolução Cultural Chinesa (1966-1976): centenas de milhares mortos ou perseguidos, destruição de património cultural e social, deslocações forçadas;

  • Massacres e perseguições coloniais e modernas: desde massacres na Índia Britânica, genocídios indígenas nas Américas, perseguições no Congo Belga, até atrocidades em conflitos africanos recentes.

A escolha do momento em que estas críticas surgem não é irrelevante. Israel e judeus globalmente enfrentam um aumento da hostilidade e do preconceito, muitas vezes alimentados por leituras simplistas de decisões diplomáticas. Transformar estes debates em armas retóricas, reforçando preconceitos ou fomentando antissemitismo aberto, é profundamente antiético.

A memória histórica exige rigor, integridade e dignidade. Reconhecer o sofrimento de uma comunidade nunca deve servir para minimizar ou apagar o sofrimento de outra. Cada tragédia tem contexto, causas, consequências e impacto únicos. Reduzir experiências humanas a rankings ou estatísticas é uma afronta à ética, à história e à humanidade.

A reflexão ética deve também incluir o impacto psicológico e cultural de tais tragédias. Sobreviventes de genocídios, deportações e massacres enfrentam traumas intergeracionais, perda de identidade e destruição de patrimónios culturais. Ignorar estas dimensões aumenta a injustiça e perpetua a violência simbólica.

A memória não é um jogo de medalhas nem uma ferramenta de propaganda. Reconhecer, compreender e aprender com cada tragédia é a única forma de construir sociedades conscientes, justas e humanas. A dor humana é complexa, multifacetada e exige empatia, responsabilidade social e honestidade intelectual. Apenas assim se respeita verdadeiramente a memória das vítimas e se evita a repetição de erros históricos.

Em última análise, debates sobre direitos humanos, justiça histórica e memória colectiva devem iluminar, não manipular. Defender a memória das vítimas do tráfico de escravos africanos e ao mesmo tempo reconhecer a memória das vítimas do Holocausto, de Ruanda, da Arménia, de Stalin ou da Revolução Cultural Chinesa não é contraditório: é um imperativo moral, ético e social.

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