A NOVA VIDA DE UMA VELHA MENTIRA: Irão, Israel e a Disfunção da Consciência Colectiva
A inversão do ponto de partida
Existe um fenómeno recorrente no debate internacional: a capacidade quase imediata de inverter a ordem dos factos.
Os recentes ataques israelitas e norte-americanos contra alvos estratégicos iranianos desencadearam exatamente esse reflexo. Em poucas horas, uma parte significativa do discurso público deixou de discutir o papel da República Islâmica do Irão na instabilidade regional para se concentrar numa acusação familiar: a de que Israel teria arrastado os Estados Unidos para uma guerra ilegítima e contrária ao Direito Internacional.
Assim, o ponto de partida da análise desloca-se. O regime que ameaça, financia e arma milícias desaparece do centro da reflexão. O foco moral passa a incidir quase exclusivamente sobre quem reage.
Este tipo de inversão não nasce apenas de divergências políticas e revela algo mais profundo, ou seja, uma dificuldade crescente em manter a fidelidade aos factos quando estes perturbam as narrativas dominantes.
O epicentro da instabilidade
Desde a revolução de 1979, o Irão, sob o regime teocrático e autoritário dos aytollahs, construiu uma estratégia regional, assente numa combinação de repressão interna e projeção externa de poder.
Ao longo das últimas décadas, Teerão apoiou e financiou organizações como o Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza, os Houthis no Iémen e o Boko Haram no Norte da Nigéria, consolidando uma rede de influência que atravessa grande parte do Médio Oriente.
Esta arquitectura de poder não existe no vazio. Ela molda o equilíbrio regional, alimenta conflitos e sustenta uma política de confrontação indirecta que se estende muito para além das fronteiras iranianas.
Ao mesmo tempo, no interior do país, o regime continua a esmagar manifestações, prender opositores e silenciar dissidências, enquanto as mulheres são reduzidas a animais de pouca estimação da gente masculina.
Seria razoável esperar que qualquer discussão séria sobre a actual escalada começasse precisamente por este contexto. Mas raramente é esse o caminho seguido.
O enfraquecimento das instituições
Parte do problema reside também na forma como as instituições internacionais abordam estes conflitos.
O United Nations tornou-se, ao longo dos anos, palco de disputas diplomáticas onde blocos políticos e alianças regionais influenciam profundamente as resoluções adoptadas. Nesse ambiente, Israel tornou-se frequentemente alvo de uma atenção constante e desproporcional quando comparado com outras crises internacionais. Não se trata apenas de números ou votações. Trata-se da percepção de que certos conflitos são analisados através de lentes particularmente severas, enquanto outros permanecem nas margens da preocupação internacional.
Quando a aplicação de princípios universais parece variar conforme o contexto político, a autoridade moral das instituições corroi-se e desmorona, imperetrivelmente.
A narrativa mediática
Se as instituições enfrentam dificuldades de credibilidade, os media confrontam-se com um problema igualmente delicado: a erosão da integridade narrativa.
A forma como os acontecimentos são apresentados condiciona profundamente a percepção pública.
Recentemente, após ataques do Hezbollah contra território israelita, um canal televisivo português abriu o noticiário afirmando que Israel tinha bombardeado o Líbano sem imediatamente informar que esse ataque fora em resposta a um ataque do Hezbollah. Apenas mais tarde, quase como detalhe secundário, mais ou menos, sussurrado, foi referido que o bombardeamento ocorrera na sequência do lançamento de mísseis contra Israel por esse grupo terrorista, proxy do Islão.
A informação estava presente, mas a ordem em que foi apresentada alterava inevitavelmente a interpretação do acontecimento. Ora, no jornalismo contemporâneo, a sequência dos factos tornou-se frequentemente tão decisiva quanto os factos em si.
A sobrevivência de velhas narrativas
É neste terreno de simplificação e polarização que antigas narrativas encontram nova vitalidade.
Entre elas, uma das mais persistentes é a ideia de que Israel ou “os judeus” exerceriam um controlo determinante sobre a política externa americana, sendo capazes de empurrar os Estados Unidos para guerras que serviriam interesses ocultos. Uma fraude narrativa semelhante à dos "Elders of Sion".
Esta acusação tem uma longa história. Ao longo de séculos, a imaginação política europeia alimentou a fantasia de uma conspiração judaica global capaz de manipular governos e acontecimentos, comer crianças, envenenar poços, causadores da peste negra...
Hoje, essa narrativa reaparece frequentemente numa linguagem que se quer mais sofisticada, mas com a mesma estrutura essencial: acontecimentos complexos são reduzidos a uma explicação conspirativa simples.
A complexidade da política internacional desaparece. No seu lugar surge uma caricatura.
A facilidade da distorção
Narrativas
conspirativas têm uma vantagem evidente: simplificam o mundo.
Onde
existem múltiplos interesses, conflitos históricos, estratégias de poder e
decisões políticas difíceis, elas oferecem uma explicação linear e
reconfortante ; identificam um culpado colectivo e libertam o pensamento
da exigência de compreender a realidade em toda a sua complexidade.
Mas essa simplificação tem um preço. Ao reduzir a realidade a um esquema ideológico, o pensamento deixa de procurar a verdade dos acontecimentos e passa a proteger a coerência da narrativa.
A anestesia da consciência
É
neste momento que ocorre uma transformação mais subtil, mais subreptícia e profundamente vil.
Quando a fidelidade aos factos se torna
secundária, a própria sensibilidade moral altera-se. O sofrimento deixa de
provocar a mesma resposta universal; passa a ser filtrado por critérios
políticos, identidades colectivas ou conveniências ideológicas.
Algumas vítimas mobilizam imediatamente a indignação internacional. Outras desaparecem quase por completo do horizonte moral. A consciência colectiva aprende, pouco a pouco, a conviver com essa selectividade.
Um teste de lucidez
Os acontecimentos actuais constituem, deste modo, um teste simples à integridade intelectual do debate público.
Criticar decisões
militares, discutir o Direito Internacional ou questionar estratégias políticas
é não apenas legítimo: é indispensável. O problema materializa-se quando a análise abandona a complexidade da
realidade e refugia-se em narrativas que invertem os factos, obscurecem
responsabilidades e ressuscitam velhos estereótipos.
Isto não significa que Israel esteja acima
de qualquer crítica. Nenhum Estado democrático o está. Mas criticar políticas concretas
não é o mesmo que alimentar narrativas que, consciente ou inconscientemente,
reactivam velhos preconceitos.


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