Entre memória e identidade: a nossa tradição judaica”
Na diáspora judaico-cabo-verdiana, por razões difíceis de explicar à primeira vista, essas tradições nem sempre foram transmitidas de forma consciente às gerações seguintes. Algumas persistiram de forma difusa, nomeadamente na gastronomia, mas muitas vezes sem uma clara identificação da sua origem. No meu caso, por exemplo, só mais tarde me apercebi de que certos elementos da cozinha da minha família provinham precisamente dessa herança.
Essa transmissão fragmentada não ocorreu por acaso, mas resulta de um conjunto de fatores históricos e sociais. Os judeus que chegaram a Cabo Verde, em particular no século XIX, muitos deles oriundos de Marrocos, estabeleceram-se em pequenas comunidades dispersas, frequentemente sem estruturas religiosas formais que garantissem a continuidade das práticas: não havia sinagogas activas de forma consistente, nem ensino religioso organizado, nem liderança espiritual permanente.
A isto somou-se um elevado grau de integração na sociedade cabo-verdiana. Casamentos mistos, adaptação cultural e a necessidade de inserção económica e social levaram, ao longo das gerações, a uma progressiva assimilação. Em muitos casos, a identidade judaica foi sendo vivida de forma privada, discreta, por vezes quase silenciosa. Isto, não por rejeição, mas por uma forma de prudência herdada de outras geografias e tempos.
Com o passar dos anos, e na ausência de transmissão estruturada, o conhecimento foi-se diluindo. O que permaneceu foram fragmentos, práticas, sabores e gestos, desligados do seu contexto original. Mais do que uma perda deliberada, trata-se de uma transformação: a herança judaica não desapareceu totalmente, mas integrou-se numa identidade cabo-verdiana mais ampla, tornando-se menos visível, mas não necessariamente inexistente.
Acresce que essa transmissão incompleta contribuiu para uma certa desconexão identitária, onde os sinais da herança permanecem, mas frequentemente desprovidos de contexto, significado e continuidade. Redescobrir essa matriz implica, por isso, um exercício consciente de memória, de estudo e de reconexão e, não apenas com práticas e tradições, mas com uma história colectiva feita de resistência, adaptação e sobrevivência. É também um processo de reposicionamento: compreender que identidade não é apenas aquilo que se herda, mas aquilo que se escolhe conhecer, preservar e transmitir.
Sabiam, por exemplo, que o calendário judaico integra numerosas festividades ao longo do ano, várias das quais correspondem a mitzvot — mandamentos divinos que fazem parte do conjunto mais amplo das 613 leis da Torá e que orientam a vida religiosa e ética? A par destas, existem outras festividades que, embora não tenham o mesmo estatuto de mandamento bíblico, têm origem nas Escrituras ou em acontecimentos históricos marcantes do povo judeu. Todas elas incorporam rituais próprios e, muitas vezes, tradições gastronómicas específicas que refletem o seu significado simbólico.
Assim, ao longo deste ano, propomo-nos a apresentar algumas dessas festividades, bem como o significado que lhes está subjacente, começando por aquelas que já tiveram lugar no decurso deste ano. Procuraremos igualmente partilhar algumas receitas associadas a cada uma delas, na esperança de que possam ser experimentadas e, quem sabe, reintegradas nas nossas práticas familiares.
Contamos com o vosso interesse e participação neste percurso de redescoberta.
S. BENROS



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