Quando o Julgamento Moral se Torna Seletivo
Um dos aspectos mais preocupantes do debate público em torno da guerra entre Israel e o Hamas não é a existência de divergências. A divergência é inevitável e saudável em qualquer sociedade democrática. O que verdadeiramente preocupa é a crescente tendência para reduzir o julgamento moral aos resultados visíveis, ignorando a intenção, a responsabilidade, a agência dos actores envolvidos e a sequência dos acontecimentos que conduziram a esses resultados.
As imagens de destruição em Gaza provocam horror, compaixão e indignação. E devem provocá-los. Cada vida inocente perdida é uma tragédia. Cada criança morta representa uma ferida na nossa humanidade comum. Contudo, o julgamento moral não pode ficar por aí.
Uma sociedade que julga apenas pelos resultados corre o risco de abandonar um dos fundamentos mais antigos do raciocínio ético: a distinção entre agressão deliberada e legítima defesa, entre intenção e consequência, entre aqueles que iniciam a violência e aqueles que lhe respondem.
Esta distinção está longe de ser uma novidade. De Aristóteles a Kant, do Direito Romano à jurisprudência contemporânea, a intenção sempre ocupou um lugar central na avaliação da responsabilidade moral. Um homicídio e uma morte acidental podem produzir o mesmo resultado, mas não são moralmente equivalentes porque a intenção importa. Da mesma forma, uma guerra de conquista e uma guerra de autodefesa podem ambas causar vítimas, mas os motivos, as escolhas e as responsabilidades envolvidas são profundamente diferentes.
O debate atual ignora frequentemente estas distinções e nuances.
Muitos comentadores falam como se a história tivesse começado no momento em que surgiram as primeiras imagens de destruição em Gaza. Os acontecimentos de 7 de Outubro são reduzidos a uma nota de rodapé ou simplesmente omitidos. O massacre de civis, o assassinato de crianças, a violência sexual sistemática, a tomada de reféns e o ataque deliberado contra não combatentes são tratados como detalhes secundários, em vez de serem reconhecidos como o acontecimento que desencadeou a fase atual do conflito.
Não
se trata apenas de uma omissão factual. Trata-se de uma distorção da cronologia
moral.
A sequência dos acontecimentos importa porque a causalidade importa. Ignorar
quem iniciou a violência e concentrar-se exclusivamente nas consequências da
resposta equivale a analisar os efeitos fingindo que as causas são
irrelevantes. Trata-se de uma falha moral.
Ao mesmo tempo, existe outro fenómeno igualmente inquietante: a empatia seletiva.
Muitos daqueles que se apresentam como defensores dos direitos humanos, dos direitos das mulheres ou das minorias tiveram muito pouco ou nada a dizer sobre as atrocidades de 7 de Outubro. Alguns questionaram os factos antes mesmo de as investigações terem sido concluídas. Outros permaneceram em silêncio. Outros ainda desviaram rapidamente a conversa para explicações geopolíticas, relegando as vítimas para segundo plano.
As mesmas vozes, porém, manifestam frequentemente uma profunda compaixão pelo sofrimento dos palestinos. Essa compaixão é legítima. O que se torna difícil de compreender é porque parece indisponível quando as vítimas são israelitas. Um princípio moral que só se aplica a determinadas vítimas deixa de ser um princípio. Passa a ser uma preferência política, at best.
Uma incoerência particularmente visível em certos sectores da esquerda contemporânea. Enquanto a esquerda apresentou-se historicamente como defensora de valores universais, da dignidade humana e do pensamento crítico, hoje alguns dos seus sectores parecem analisar os conflitos não através de princípios universais, mas através de categorias ideológicas rígidas: opressores e oprimidos, colonizadores e colonizados, fortes e fracos. Uma vez atribuídos esses rótulos, toda a complexidade moral desaparece.
O resultado é uma estranha inversão. Actos que seriam condenados em qualquer outro contexto tornam-se aceitáveis ou justificáveis quando praticados pelos atores considerados estar do "lado certo da História" –que, entre nós, é uma postura arrogante e de um narcisismo patológico. A violência deixa de ser julgada pelo que é, e passa a ser julgada por quem a exerce. Estamos perante um fenómeno de raciocínio tribal revestido de linguagem moral.
A tragédia é que esta forma de pensar acaba por falhar a todos, incluindo os próprios palestinos. Um quadro moral incapaz de condenar sem hesitação as atrocidades de 7 de Outubro, ao mesmo tempo que lamenta as vítimas inocentes de Gaza, acaba por transformar qualquer revés ou humilhação infligida a Israel numa espécie de vitória moral. Não deixa de ser revelador que dirigentes do próprio Hamas tenham apresentado o resultado político de 7 de Outubro como um sucesso: provocar uma resposta israelita de tal dimensão que acabasse por gerar uma crescente hostilidade internacional contra Israel. Quando essa lógica se instala, quem ousa questioná-la deixa de ser simplesmente alguém com uma opinião diferente: passa a ser alvo de censura, hostilidade ou condenação colectiva. Como advertiu Hannah Arendt, o perigo começa quando a ideologia substitui o pensamento e a capacidade de julgar por si próprio; é nesse terreno de conformismo e perda do juízo independente que o totalitarismo pode encontrar espaço fértil para crescer.
É também aqui que a responsabilidade dos intelectuais se torna particularmente importante. Quando, em vez de questionarem a corrente dominante, se apressam a acompanhá-la, seja por sede de reconhecimento, visibilidade, pertença ou simplesmente para não ficarem do lado “errado” da narrativa, deixam de exercer a função crítica que a sociedade deles espera. O intelectual não deveria ser aquele que segue o “bandwagon”, mas aquele que se dispõe a pensar contra ele.
Um pensamento que funciona assim dificilmente poderá oferecer um caminho coerente para a paz, a justiça ou a reconciliação. Exige que sejamos capazes de sustentar duas verdades em simultâneo: que o sofrimento dos civis de Gaza é real e profundamente trágico; e que as atrocidades de 7 de Outubro foram reais, trágicos e moralmente indefensáveis. Que os palestinos inocentes merecem proteção; e que os israelitas inocentes merecem protecção. Que a compaixão não deve depender da nacionalidade, da etnia, da religião ou da utilidade política das vítimas.
O verdadeiro teste do carácter moral não consiste em defender aqueles cujo sofrimento coincide com as nossas preferências políticas ou oportunismos. Consiste em defender princípios universais mesmo quando estes contrariam a narrativa que preferimos.
No momento em que abandonamos esse critério, deixamos de praticar ética e passamos a praticar partidarismo. E o partidarismo, ao contrário da moralidade, raramente está interessado na verdade.

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